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quinta-feira, 15 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS -8





DAS CASAS










CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 6


A Santa Casa
05/06/2010

Hoje, as segundas, é dia de mutirão na vila. Todos realizam atividades comunitárias: limpeza, capina, qualquer coisa necessária à comunidade e organizado pela associação de moradores. Fui dispensada da função Vovó, para atendimento no posto de saúde. Há já um certo tempo não há médicos aqui. Mas não vejo porque seriam necessários, já que há um Centro de Medicina da Floresta, com produção de medicamentos fitoterápicos, remédios florais da Amazonia, inclusive com referência internacional.
Conforme eu previa, mesmo tendo sido anunciado no alto -falante da vila o atendimento médico, só apareceram tres pessoas, buscando " remédio de vermes". O que me chamou atenção foi que as prateleiras de remédios - amostras grátis - dispunham de uma grande quantidade de medicamentos que em nenhum outro posto em que trabalhei em tôda minha vida "esquentavam prateleira". Ou seja, não há demanda por remédios, porque pouco se adoece. Fiquei sabendo que a oferta dos medicamentos não é grande. a demanda é que é inexistente.
Porém, a Santa Casa, local de atendimento espiritual à saúde atende a uma demanda regular, sempre. Investiguei, os indicadores de saúde são ótimos. Não há aqui o vício em doença. Aquela necessidade que vi tôda a minha vida profissional da afirmação psicológica e emocional através do adoecimento. Busca-se de fato condições de saúde.
O posto de saúde é próximo à Santa Casa, com gabinete médico, odontológico ( tambem não tem dentista - esse, sim creio ser necessário) e um centro de diagnóstico e contrôle da malária, com laboratório, funcionando, com equipe inclusive.
Já foi sonho antigo trabalhar assim. Em outras épocas, cheguei quase a transferir-me para a Amazonia, já tinha contatado emprêgo em outra região no entanto, mas fazer planos para a vida contraria os planos que a vida faz para a gente e não fui. Hoje em dia estou presa emocionalmente aos netos, aos filhos e filhas que não sairiam do sudeste maravilha e sou dependente da companhia deles. Mas continuo a sonhar, quem sabe, um ou dois meses ao ano, sonhos não devem morrer.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 5

em 21/06/2010, a tarde

Deus existe! E Êle é à minha imagem e semelhança. Como eu, Êle adora fazer jardins. E põe nisso tal desvêlo que por vêzes até esquece suas outras funções. Os jardins divinos que vejo aqui são a coisa mais bela que ja pude imaginar. Tal combinações e variedades de espécies, ou trechos e repetições, é algo que só um magnífico paisagista conseguiria imaginar ou fazer. Não é absolutamente acaso os jogos de simetrias, proporções, podas, estruturas das bases, tudo, tudo é perfeito.


27/06/2010, tarde

Vários tipos de mosquitos, pernilongos, carapanãs e sei lá mais o que, um calor terrível, carrapatos, restrições prolongadas ao meu ir e vir, tudo que detesto, e no entanto estou amando estar aqui. O que está me acontecendo? Não quero ir embora.

29/06/2010, manhã

Aqui voce fica perdido nas horas dos dias e nos dias. Não é só por conta do fuso horário, estranho, mas por uma estranha confusão produzida pelo sol e sombras. Custei a descobrir o nascente e poente. Nesta pequena clareira que comporta uma casinha e seu jardim, o sol é visto pelo reflexo nas copas das árvores, mais do que permite ser visto ao atravessar o céu.


29/06/2010, tarde

Uma caminhada pelas trilhas, no entorno da casa. Para todo lado vê-se referência às chuvas abundantes, os tempos de lama e atoleiros. Rampas de madeira sobre o solo agora seco. Passarelas sobre poças d'agua agora inexistentes. Só areia. Das flores, só sinto os perfumes, dos animais, só ouço os sons de rastejares entre folhas secas, os cricrilares e outras vozes. E os sons domésticos, galos, crianças, ferramentas.

30/06/2010, noite

Não chove, as águas do Igarapé estão cada dia mais baixas. Os dias estão cada vez mais quentes, mas eu esperava que fosse pior ainda. Alguns dizem que em continuar assim as voadeiras não poderão seguir. Será que meus desejos serão realizados? "Ficagem" compulsória?

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 4


NA VILA

Pensava que o calor seria insuportável, mas dei sorte. Na casa em que fiquei, é até bem tolerável. A casa é rodeada de árvores, do pomar, criado e agora sendo transformado num regime de agrofloresta, além de ser relativamente pequena a clareira aberta para esta casa. Quase não dá para ver o céu, se considerar a amplidão que via durante a viagem, nas imensas planícies, mas em compensação dá para viver confortàvelmente. É só não sair de casa. Porque se andar ao sol, aí a coisa é diferente. Não adianta chapéu, nada. Então saia pouco. Até porque as crianças não merecem ser torradas. Sair cedo ou no final da tarde não é recomendável devido ao risco da malária. No meio do dia o risco de insolação ou intermação é alto. Até o pequeno comércio da vila fecha entre onze e quinze horas, "mais ou menos". Isto faz com que o tempo aqui tome dimensões diferentes. Tudo anda mais devagar. Poucas coisas se fazem na hora combinada. Os acordos de encontros se fazem "aproximadamente". Não há stress, não há tensões pelos compromissos. As coisas fluem ao sabor do tempo, digo, do clima. Mas tudo vai acontecendo.
A grande surpresa foi a existencia de um centro de mídia. Uma rádio local e uma central de internet. Que funciona enquanto os geradores de luz estão ligados. Quando tem luz, tem wireless, para quem tiver laptop. Aos demais, alguns computadores para uso comunitário. Não usei, porque estava lá para outras funções, não me cabia usar o tempo para autorecreação. A escola tem tambem diversos computadores para os alunos e professores e o segundo grau funciona com a modalidade de ensino à distancia com presença de professores/monitores. E o nível é excelente. Conheço algumas pessoas que sairam daqui diretamente para universidades federais, sem o regime de cotas. Pura capacidade. As casas na sua maioria receberam de uma ONG painéis solares, o que permite a muitos, televisão, geladeira,até máquinas de lavar roupa, com moderação, pela propria opção dos moradores. São cerca de 600 residentes, segundo me disseram. As casas espalham-se entre trilhas da floresta. Saindo do centro da vila, não se vê os vizinhos. Alguns são ouvidos, principalmente as bombas d'agua, dos que não tem bomba elétrica, os que usam bombas a gasolina. Em alguns horários, ouve-se uma, outra, tres ou quatro. Ouve-se tambem os roncos das voadeiras chegando ou saindo. Mas ouve-se principalmente os sons da floresta: cantos de pássaros, insetos e macacos. Alertam-me contra serpentes. Que me dizem para não falar o nome, para não "chamar" Não se fala "cobra", fala-se "inseto". Os macacos fazem uma tremenda algazarra frequentemente. Mas são todos invisíveis na mata. E não sei se trote com a turista ou se verdade, me avisam para tomar cuidado com as crianças à tardinha, pois diversas vezes viram onças no local. Só esqueceram de me avisar dos micuins. Quando fiquei sabendo, já era tarde! Sabem, aqueles microcarrapatinhos, que aqui tem proporções amazônicas, ou, exageradas: o que é grande, é grande, o que é pequeno, é pequeno mesmo. No segundo dia, comecei a coçar e coçar, procurava durante a noite sem dormir, até com uma lupa e nada via. Na manhã seguinte quando minha filha acordou e pôde me ajudar eu já estava totalmente infestada, no tronco. E aquilo, mesmo após ser removido, continua a coçar e coçar, por dias. Cheia de placas vermelhas, coçando sem poder coçar, para não dar feridas. Remédios da floresta, cheguei a ficar de cama, por uma reação imunológica no dia seguinte ao "acidente". Pelo menos a partir deste primeiro "contato" fiquei esperta: só peguei uns novamente na véspera da partida. Porque abusei, fui aonde não devia, mas como sabia como proceder tão logo chegasse em casa, não houveram mais grandes problemas. Mosquitos, pràticamente não vi ou senti. Mas também não abri mão dos repelentes e à noite, dormia com moquiteiros.
Fiz diversas caminhadas em trilhas da floresta e além da beleza das matas, fiquei encantada com os perfumes que toda hora me invadiam. Quase não avistava flores, talvez pela altura que as árvores alcançam,ou pela densidade da mata, mas percebe-se a existência delas pelas diversas fragrâncias que sentia. Bom demais. Sempre que o Davi ficava irritado, seja pelo que fosse, bastava colocá-lo no carrinho para passear que logo meu baixinho se acalmava, na floresta.
Impressionou-me o solo. Aquela estória da desertificação, da pobreza do solo quando desmatado, vê-se bem ao caminhar. Qualquer chão que se pise, mesmo estreitas trilhas, ou ao redor das construções, é pura areia. Uma areia tão fina que mais parece poeira. Quase branca de tão clara. Não se vê terra, solo fértil, como se vê em desmatamentos da Mata Atlântica.
E o céu à noite, é um capítulo à parte. Devido a pouca luz elétrica, estamos infinitamente longe de qualquer cidade e os painéis solares permitem uma ou duas lâmpadas por casa, separadas pela floresta e que ficam apagadas sempre que possível , a via látea toma um aspecto magnífico. É impossível não sair um pouco à noite para ver o céu, tôdas as noites. Depois que acabou a lua cheia, porque na primeira semana, a lua era tão brilhante, que quase parecia dia. Nem precisava-se de lanternas para se caminhar. E depois, as estrelas.





segunda-feira, 12 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 3


NAVEGANDO NO IGARAPÉ

De repente, a voadeira vira 90 graus, e aponta à esquerda. Minha filha espanta-se com a nova imagem do Igarapé Mapiá. Pouca água, estreitou muito, ela diz. E eu que achava que igarapé era um riachinho, espanto-me com a largura, aproximadamente 5m. Enquanto navegamos rio acima, volteando em inúmeros meandros, explicam-me que o percurso é assim sinuoso apenas na seca. Nas chuvas, a água sobe tanto que as voadeiras não precisam seguir o curso dos rios, seguem quase em linha reta por atalhos, onde hoje é terra firme e floresta. Duas horas a menos de viagem, dizem, mas sob chuva. Dizem-me do quanto é lindo navegar dentro da mata. Pronto: aumenta o "gosto de queromais"; ainda nem cheguei ao destino e já desejo retornar nas cheias. Mas agora, não há retas, apenas curvas e curvas e em menor escala o que ja havia visto no Purus; troncos arrancados de um lado, praias do outro. Aqui, torna-se mais claro o porque da fertilidade das praias. Vê-se com clareza as camadas de sedimentos, alternadas: folhas e restos organicos alternados com areias. a quantidade de troncos e raizes no meio do rio é enorme. As vezes contornado, outras precisamos nos abaixar para passar por baixo. Logo no início, o Nildo adverte; " primeira cachoeira" . Assusto-me, pois o que conheço como cachoeira é...cachoeira. Aqui é apenas uma correnteza um pouquinho mais forte. Ufa! E logo paramos na Fazenda. Uma fazenda, mesmo, onde vamos comer algo ( que trouxemos) enquanto aguardamos a troca de canoa e o descanso do canoeiro. Trinta minutos, adverte. Já estamos atrasados. São duas da tarde. E se preocupam com a chegada da noite. Serão mais quatro horas de barco. No Purus ficamos pouco menos de quatro horas tambem. Nossa! Nem senti o tempo passar! Subimos caminhando por uma trilha que minha filha diz que nunca havia visto, pois quando veio, das outras vezes, as águas chegavam lá em cima. Fico pensando nas nossas regras das cidades, onde um motorista não pode dirigir um ônibus por mais de duas horas, é necessário pausas e revezamentos por questões de segurança. No rio, o canoeiro, credenciado pelo ministerio da Marinha fica no contrôle por 8 horas ou mais.
Comemos, demos banho nas crianças, para refrescar um pouco, o calor já é insuportável, além dos mosquitos. Acabo de descobrir o que fui fazer mudando-me para Cabo Frio: sem que eu soubesse, a vida já estava me preparando, aclimatando, para esta viagem que eu nem imaginava que iria acontecer. Calor e mosquitos. Repelente e abanos. Meu genro resolve aproveitar para visitar um amigo que mora na fazenda. Consequencia disto tudo, um pequeno atraso para a partida.
Seguimos volteando entre praias, troncos caidos, vegetação das margens. Aqui e ali uma ou outra canoa, um ou outro rancho, às vezes divisamos rostinhos de crianças entre as árvores das margens. Muitas das canoas que vejo ainda são aquelas construidas e escavadas de um só tronco de árvore. Técnicas rudimentares (?) de nossos indígenas e caboclos.
Estou encantada pelas formas que surgem das águas. Os troncos que foram arrancados parecem verdadeiras obras de arte. Esculturas dignas de figurar nas melhores galerias. Penso em Krajcberg. Muitos desses troncos ou galhos movem-se constantemente ao sabor da correnteza, numa dança interminável, muitas vezes assumindo um aspecto macabro, outras pura arte. Descem e sobem ou lateralizam-se, infinitamente. (Fotografo tanto, que agora nem sei escolher qual vou postar). A maioria das formas é tão incrìvelmente linda, que contrui um catálogo de arte. Muitas se antropomorfizam, outras assumem formas animais, outras ainda puro abstracionismo.
O riacho da minha imaginação, assume proporções majestosas. Algumas curvas alargam-se em verdadeiros lagos, onde refletem-se a beleza das árvores. Em muitas praias voam miríades de borboletas. Aqui, quatro ou cinco metros de largura, logo na próxima curva atinge mais de dez metros. E assim vamos. A profundidade não sei avaliar, mas parece pouca, já que a todo hora o canoeiro precisa levantar e retirar a hélice da água, para não quebrar. E pára-se diversas vezes para reabastecer. Aqui o motor de popa (como conheço), foi substituido por um outro, que me informo, chama-se "rabuda" ou "rabo de jacaré", próprio para aguas rasas.
Numa dessas paradas, os meninos querem entrar na água. Saímos do barco, esticar as pernas, e de repente o Davi, que ainda não tem dois anos, sai correndo e se atira na água. Com tudo, e afunda. Vovó se joga atras e puxa o menino para cima. Ele já estava quase sem roupa , eu de calças compridas e blusa de manga comprida, afinal, não pretendia tomar banho no Igarapé. Pronto, molhada pela metade, refrescada, rezo para que não tenha comprometido a câmera. Êle adorou a brincadeira, quer porque quer repetir e quase consegue. Pulo muito atras dele, enquanto a Mamãe controla o de quase quatro anos, que tambem está na água. A maior choradeira quando temos que seguir viagem.
A grandiosidade da mata ciliar(?) me impressiona. Dei graças por ter vindo na seca. Afinal, com as águas quatro ou cinco metros mais alta, as árvores tambem vão encolher quatro ou cinco metros.
E os atrasos no embarque e nas paradas cobra seu preço. Anoitece. A canoa não tem farol. A princípio, o Nildo orienta-se pelo brilho da lua quase cheia nas praias e talvez pelo seu conhecimento de cada curva, de cada tronco do leito do igarapé. Perguntamos se não tem uma lanterna, que então começa a usar, mas parece que piora a visibilidade, considerada a velocidade em que seguimos. Alguma vezes batemos em troncos, a canoa oscila de um lado para outro, de certa feita quase caem as caixas de provisões, de outra, bate de frente em um tronco, que ao deslocar-se, arranha a perna do Davi, que chora muito. Não tem solução. Aqui não podemos ficar. Tiro os óculos, ponho dentro da bolsa, não posso ficar cegueta, caso consiga chegar, se os óculos cairem dentro do rio. Penduro a bolsa com documentos ao pescoço. Se virarmos, a pouca profundidade permitirá o resgate das bagagens, diz o barqueiro. "Sejaoque deusquiser!" Começo a brincar de tentar adivinhar em que momento seria feita a curva, oscilo, balanço, só me preocupam as crianças. Ainda não sabia de estórias de quedas, de certas palmeiras (esqueci o nome) que tem o tronco coberto de espinhos que podem ferir bastante quem vira sobre elas. A ignorância ajuda-me a não sentir tanto medo.
Então chegamos! Vila Céu do Mapiá. Uma enorme ponte sobre o igarapé, iluminada, surpreende-me. Desço do barco, começo a subir as escadas que levam à terra firme e que nas cheias ficam submersas e já no terceiro passo, não sei se cansaço ou tensão, meu pé esquerdo erra o degrau de tábuas, entra entre um e outro. Uma dor insuportável! Meu genro chamando, acima, para eu pegar o Davi que dorme, para que ele pudesse pegar o Gabriel e descarregar. Ninguém viu, eu não falei. Subo, contendo-me. " Não quebrou, não quebrou" . Mais alguns degraus, sento-me com o Davi ao colo, abro a bolsa, procurando no escuro e com apenas uma mão o vidro com arnica, da homeopatia, já que meus problemas de saúde não me permitem usar analgésicos antiinflamatórios. Tomo quatro, oito, sei lá, quase meio vidro dos tabletes. Não tenho coragem de olhar, deixo para depois. A dor começa a tornar-se suportável, enquanto começamos a caminhada até a casa onde ficaremos hospedados. Cerca de 1 km. Nem consigo apreciar ou sequer notar o que está a minha volta. Só quero chegar.
Um corte de cerca de 5cm, horizontal, em meio a perna. Um imenso hematoma se forma ao redor, outro logo abaixo do joelho, no lado interno da perna. Não quebrou, vou sobreviver. Espero. Não sou vacinada contra tétano. Sou alérgica a componentes da vacina.




onde não esta o rio, que nas cheias vai até a beirada das casas e algumas vezes até o pátio, ainda são construidas sobre pilares - como palafitas.

as borboletas

os sedmentos

uma canoa



(21/06/2010)

domingo, 11 de julho de 2010

Crônicas Amazônicas - 2


O PURUS

Contratada a embarcação, uma canoa de alumínio, com motor de pôpa, chamadas aqui de "voadeiras", talvez porque, como descobri depois, ainda são muitos os que usam embarcações - canoas - à remo, com critérios de escolha que eu desconhecia, são muitos os canoeiros que aguardam no porto, mas também são muitos os viajantes, principalmente nesta época, do Festival. É confortável ser acompanhante, não ser quem tem que decidir, fazer as escolhas. A vida toda eu fui pai e mãe, todos dependiam de certa forma, de minhas decisões e êrros de escolha trazem consequências muitas vezes terríveis. Sei bem disso.
Bagagens a bordo, finalizadas detalhes de compras de suprimentos, o canoeiro cobrando o atraso, são 10;30 da manhã, o atraso pode acarretar dificuldades pela chegada da noite, os outros já partiram em suas voadeiras, ficamos para trás, mas são duas crianças que têm certas demandas, é necessário comprar também coletes salva vidas para as crianças, as voadeiras só tem para os adultos, travesseiros para sentarmo-nos durante o longo percurso, água para beber, ter certeza de que nada falta, depois pode ser tarde. De qualquer forma, torna-se tarde. Seguimos.
Minúsculos pontos esparsos ao longo do Rio Purus, voadeiras "voando" outras canoas seguindo a remo, um ou outro batelão. Estamos na seca. A vazante expõe bancos de areia que podem encalhar barcos maiores. Logo entenderei.
Sob o imenso céu azul, cúmulus brancos e acinzentados criam a dúvida: irá chover? Temos capas de chuva, lonas para cobrir as bagagens, latas para retirar a água que se acumularia na canoa pela chuva, mas o Nildo garante, não irá chover. No inverno, sim, chove todo dia, muito. Por hora, é proteção contra o sol. As "queimaduras do Purus" são famosas. Mangas compridas, apesar do calor intenso. E bota intenso nisso, no barco suavizados pelo vento. Protetor solar, chapéus. Difícil manter os meninos com chapéu e coletes. Protestam, mas logo adormecem e podemos cobri-los para proteger do sol. Um ou outro, raramente os dois ao mesmo tempo. Mas isso facilita o contrôle. Somos tres adultos para duas crianças. Numa pequena canoa. Na verdade, das grandes. Quando sairmos do Purus e entrarmos no Igarapé do Mapiá, será necessário a troca por uma embarcação menor, pela pouca profundidade do rio nesta época. O motor de pôpa veloz, não tem condições de navegar na seca, então será usado apenas no Purus.
O barco ora vai para a direita, ora para a esquerda, no, para mim - imenso rio. Que espanta aos que estão comigo e já foram lá mais de uma vez, no "inverno", pelo quanto está vazio. Foge dos bancos de areia e dos troncos submersos, que agora, expõem-se parcialmente. Algumas vezes diminui muito a velocidade. Fico bastante admirada da técnica do barqueiro. Admiração que só vai aumentar ao longo da viagem e das dificuldades do percurso.
Cruzamos com outras voadeiras, conduzidas muitas vezes por meninos, com suas famílias eu presumo. Tão jovens com tamanha responsabilidade! Mas cresceram aqui. Aprendem a navegar logo que aprendem a andar. Não há estradas entre suas casas e de outros ou a cidade. Apenas o Rio. Mais tarde vi pais com filhos muito pequenos ao colo, já lhes transmitindo o conhecimento. Suas mãozinhas minúsculas cobertas pelas de seu pai, ao leme, conduzindo suas embarcações.
Ao contemplar as barrancas, e pelas informações que vou recebendo, imagino o que possa ser a cheia, quase metade do ano. São apenas duas as estações. As chuvas e o verão. O calor faz parte das duas. A diferença são as águas. O que me mostram é que o nível da água altera-se em oito ou dez metros, ás vezes mais. Penso na imensa massa de água que desliza. Logo sou tomada pelo desejo de conhecer o inverno também. Mas o que vejo já me deixa extasiada.
O que vejo é Terra Viva, em transformação rápida, intensa e extensa. A água revolvendo, arrancando as árvores e a terra, escavando de um lado do rio. Do outro lado, depositando-se areia, formando praias, que só são vistas na seca, e que são áreas bastante férteis apesar de arenosa. Plantam-se nestas praias, milho, mandioca, feijão, arroz. Colhe-se uma safra ao ano, abundante. Sobre as barrancas, em solo firme, os ranchos dos moradores, bananeiras, uma ou outra coisa que se pode divisar, mas estamos muito abaixo para ver direito. Ora de um lado, ora do outro, dependendo das curvas do rio, a parte côncava arrastada, na convexa formando-se em depósitos de sedmentos. Um pouco além da praia, formando-se a mata, grandes áreas de embaúbas, indicativas de floresta em recuperação. Ou em formação. Em toda praia, ancorada uma ou mais canoas. Estão cuidando das plantações. Mas quase não se vê pessoas.
Estou impressionada com o tamanho da árvores arrancadas e depositadas ao longo do rio, pela erosão. Alguns ranchos já estão tão na beirada que chego a temer pela segurança de seus moradores quando vier o próximo inverno.
Êxtase, êxtase. E de repente voce se acostuma com aquela grandiosidade, se torna parte daquilo. Simplesmente estou ali. Penso no que sentiu o Criador, ao ver o mundo se formando. Não encontro outra palavra para empregar, para descrever o sentimento. Isto é sublime. Magnífico.





( Em 21/06/2010)

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sábado, 10 de julho de 2010

CRONICAS AMAZONICAS

Do Rio para Brasília, onde encontrei uma parte do grupo que seguiria até Rio Branco onde já estavam meus netos, filha e genro que haviam ido pela manhã, para compra dos suprimentos necessarios, além de outras pessoas, para seguirem para o " Céu do Mapiá", no Amazonas. Minha filha, para dar inicio à sua pesquisa-ação, da sua tese de doutorado, os outros, a caminho do Festival de junho, evento importante da sua doutrina. Uma espécie de peregrinação, que mobiliza os seguidores do Santo Daime, com certa frequência, na medida do possível, atendendo a seus desejos e possibilidades financeiras. Eu, estranha no ninho, quase como turista, embora já tenha algum conhecimento dos princípios e regras que iria encontrar. Além de um grande desejo de conhecer o que em minha idéia, era uma colônia que mantinha ideais comunitários que eu buscava, nos anos 70/80 e que depois acreditei extintos, mas que vi em pleno vigor em Findhorn, Escócia, em outubro passado. Atraso na conexão do vôo, chegamos a Rio Branco às 3 da madrugada, já considerado o fuso horário, onde nos aguardava um microônibus e as crianças, alegres apesar do horário. Embarcamos todos, metade do ônibus ocupado por bagagens e provisões e seguimos. Cantavam hinos religiosos, numa alegria de encontros e reencontros, sustentados pela fé, até que aos poucos adormeciam. Eu não preguei o olho, medo de que um dos meninos rolasse e caísse do banco do ônibus, preocupação desnecessária, dormiam profundamente, os espaço entre bancos estava parcialmente preenchido com mochilas. O onibus balançava na rodovia, cheguei a pensar em falhas do motorista ou do ônibus. Após mais ou menos 70 km, a estrada torna-se de terra. Buracos e buracos. Os 210 km de Rio Branco até Boca do Acre, que apesar do nome ja fica no Amazonas, levariam mais de 6 hs para serem percorridos. Imagino como seria no "inverno" que é como é chamado o periodo das chuvas. Embora em todo o hemisfério sul estivéssemos no inverno, lá é considerado verão, a época de seca. Fora do ônibus eu não via nada além do que o farol mostrava, as estrada e capim nas beiradas. Visibilidade do entorno prejudicada pela escuridão e pelas luzes acesas dentro do veículo. Seria floresta a paisagem que eu atravessava sem ver? De repente o céu começa a se tornar cinzento, com tons avermelhados no horizonte. Tudo é pasto. De um lado ao outro. Cercas, uma ou outra porteira, um ou outro tronco ressequido destacando-se em meio a devastação. Com a pouca luz, ainda não consigo distinguir se são queimados ou apenas desfolhados pela seca, não sei. A luz já permite divisar um ou outro rancho totalmente às escuras. Estariam habitados? Quilômetros e quilômetros sacolejando em buracos e "costelas de burro", uma ou outra imensa árvore destacando-se na planície imensa. Mais tarde descubro se tratarem de castanheiras. Estas são preservadas pela sua imensa importância econômica. Logo começam a surgir pequenos bosques. Reserva legal? Mas na Amazonia, a lei determina que as reservas legais devam ser de 80% da terra, não me parece que eu esteja vendo mais de 20% de matas. Palmeiras, provàvelmente açaizeiros, acho que não fiz o "dever de casa", uma pesquisa sobre o que iria encontrar. Estou munida apenas com vagas informações que colhi ao longo da vida. O horizonte sob o céu róseo, já dá uma idéia da imensidão de tudo que me espera. Descomunal o tamanho das castanheiras. Muito maiores do que as maiores árvores que encontro em minhas andanças pela mata atlântica, ou tudo que já tenha visto. Porem escassas em meio a tanto pasto. Uma ou outra capoeira suja do pó avermelhado da estrada. Quatro horas de viagem e não cruzamos ou fomos ultrapassados por nenhum outro veículo. Não sei se posso chamar floresta a esses pequenos bosques. Passa uma kombi no sentido contrario. O céu ainda não atingiu a cor azul. São 6,30hs. Na verdade, para mim, seriam 7,30hs. Uma árvore cheia de urubus!
Nasce um imenso sol vermelho. À frente dele, uma construção solitária de alvenaria, com os dizeres "Assembléia de Deus". Logo dá para ver nos terreiros das casas de madeira, de tábuas, com telhados ondulados, de folhas de alumínio cintilando ao sol, animais domésticos, cabras, cães, galinhas , aquecendo-se aos primeiros raios de sol. Novamente asfalto, após cerca de 100 km de estrdas de terra, em meio ao amplos espaços, pontilhados aqui e alí de uma ou outra construção rústica, De uma, não se avista outra. A vastidão do espaço desolado.
E assim, de imagem em imagem, paisagem em paisagem, chegamos à Boca do Acre.

sábado, 19 de junho de 2010

Agenda:

1 -SEMINÁRIO CARTOGRAFIAS SOCIAIS E TERRITÓRIO NA AMÉRICA LATINA
Datas (Fechas): 21 a 23 de julho de 2010
Local : Casa da Ciência da UFRJ
Rua Lauro Muller, 3
Botafogo, Rio de Janeiro


2-Cerimônia da água


25 de julho

sexta-feira, 18 de junho de 2010

recebi e-mail: Caça às Baleias

às baleias - a votação final
EntradaX

Responder |Ben Wikler - Avaaz.org para mim
mostrar detalhes 10:37 (34 minutos atrás)


de avaaz@avaaz.org
Caros amigos,

Em poucos dias acontecerá a votação para legalizar a caça comercial às baleias. 650.000 pessoas já assinaram a petição para proteger as baleias e uma equipe da Avaaz estará presente nas negociações para garantir que as nossas vozes sejam ouvidas -- vamos conseguir 1 milhão de assinaturas! Assine e depois encaminhe este alerta:
Dentro de uma semana a Comissão Baleeira Internacional (IWC) fará a votação final para uma proposta de legalizar a caça comercial de baleias pela primeira vez em uma geração.
O resultado depende de quais vozes serão ouvidas de forma mais clara nos momentos finais: o lobby pró-caça ou cidadãos do mundo?

Mais de 650.000 membros da Avaaz já assinaram a petição para proteger as baleias – é hora de conseguir 1 milhão! A equipe da Avaaz estará nas negociações da IWC no Marrocos semana que vem e conseguimos outdoors, anúncios de primeira página em jornais e um marcador gigante mostrando as assinaturas na petição. Tudo para garantir que os delegados, desde o momento em que descerem do avião até a hora da votação, vejam a nossa mensagem que o mundo não aceitará um massacre de baleias. Clique para assinar e depois encaminhe este email para todos:

https://secure.avaaz.org/po/whales_last_push/?vl

Graças a um chamado global, muitos governos já se comprometeram a irem contra a proposta. Cada vez que a petição da Avaaz ganhou 100.000 nomes, ela foi enviada para a Comissão Baleeira Internacional e governos chave. Alguns, como a Nova Zelândia agradeceram todos nós que assinamos.

Mas a pressão do outro lado é incansável. Outros governos, especialmente na Europa e América Latina podem se abster... ou até mesmo apoiar a proposta. Portanto, o resultado da votação é ainda incerto.

Pressão popular é a nossa melhor chance. Afinal de contas, foi um movimento social global na década de 80 que conseguiu banir a pesca comercial de baleias que nós agora estamos tentando proteger. A Comissão Baleeira Internacional se reunirá no Marrocos a partir desta quinta-feira dia 17 e a votação será em menos de uma semana. Vamos garantir a presença das nossas vozes globais para recepcionar os delegados:

https://secure.avaaz.org/po/whales_last_push/?vl

Depois que a proibição global foi imposta à caça comercial de baleias, o número de baleias mortas todo ano caiu de 38.000 para poucos milhares. Isto é apenas uma prova do poder da humanidade em seguir o caminho certo. Enquanto lidamos com outras crises atuais, vamos valorizar este legado de progresso – nos unindo agora para proteger nossos vizinhos majestosos e inteligentes neste frágil planeta.

Com esperança,

Ben, Ben M, Maria Paz, Ricken, Benjamin, David, Graziela, Luis e toda a equipe Avaaz

PS. Mesmo após a proibição, o Japão, Noruega e Islândia continuaram caçando baleias. Estes países estão pressionando o IWC para enfraquecer as restrições à caça. Aguardando a permissão para caçar ainda mais baleias, o Japão já está planejando comprar o maior navio baleeiro já visto. Clique aqui para assinar a petição.

Leia mais:

Três países querem "levar" baleias para a mesa e para o armário da farmácia:
http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1441992

Japão ameaça deixar Comissão Baleeira Internacional:
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,japao-ameaca-deixar-comissao-baleeira-internacional,567025,0.htm

Ambientalistas pressionam Japão para não caçar baleias:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100617/not_imp567722,0.php

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Contagem regressiva


Dessa vez, no próximo domingo, sigo para a MATA, com letras maiúsculas. Vou para uma imersão de quase 30 dias em uma pequena vila na Amazonia. Recursos materiais, precários, luz elétrica algumas horas do dia apenas, por gerador, o resto, imagino. Detesto tomar banho frio, é como se não o tivesse feito. Dispenso até os sabonetes se for o caso, mas a água, tem que ser muito quente. Adoro o mar e as aguas das cachoeiras, para contemplar, ouvir e tocar apenas com as mãos e pés, jamais com a barriga, dá cólicas... Comer, estou habituada a ser coletora. Em uma sociedade capitalista e consumista. O que chamo de coleta hoje, é, na verdade, comprar um básico onde paro minha carruagem/quartomóvel, já prèviamente abastecido com algum essencial- como biscoitos, frutas, água e sucos e guaraviton ou outro refrigerante estimulante-para-quem-não-toma-café-não-dormir-ao-volante e que na medida do possivel atendam aos critérios técnicos para uma boa alimentação tanto quanto a critérios ecológicos e sustentáveis. ( mas tem o refri...) Tudo bem que coletora por onde passo, comprando algo em pequenas padarias ou mercearias, é bem diferente de ser coletora onde se chega após 5 hs em média de barco - nas voadeiras. Tenho que planejar - aaiii...que coisa absurdamente difícil para mim, sou pessoa do imprevisto, das urgências, emergências, mas estou envelhecendo, as capacidades entram em declínio, então devo ter que planejar um mínimo para esta viagem. Será? Como não vou com recursos próprios, nem por minha conta, sigo, como sempre, para ir cuidar e ficar com os netos enquanto sua mãe, uma filha, vai fazer parte do seu trabalho de campo para seu doutoramento.(Curso este que está me rendendo grandes viagens. Benzadeus! Viu como é bom ser bom? Me comprometi, a dois anos a ajuda-la para que pudesse dar conta, com os dois pequenos, e eu que só me dou bem...Fico desfrutando da companhia, inteligência, criatividade, das experiências daqueles meninos e ainda viajando). Mas como vou de acompanhante, faço um pouco de corpo mole ante algumas necessidades de previsões em provisões, recordo a eles, ou aviso, que é assim, e vou junto.
(Agradeço à Vida!).

Minimizar bagagem. O essencial. Mas o que pode ser essencial em um mes quase-dentro da mata? De vestir, usar, comer? Eu, como um jabuti, carrego um grosso casco que me carrega, e dentro dele me ponho a salvo do que me aflige em carência, tenho o basico que posso necessitar ou eu prefiro acreditar assim . Quem foi o sábio que disse que só devemos ter o que podemos carregar? Já passei por experiências assim, por acidentes da natureza tais como desmoronamento onde eu morava , que me levou a passar uma temporada com uma mala, ou um rompimento dramático em um casamento, onde sai com uma mala, por vontade própria. E são temporárias essas experiências, meus acúmulos, o excesso que arrasto comigo, êste estará me esperando para quando voltar, voltar também aos velhos vícios, revestidos pela novidade trazida.
-Sei, só saberei o essencial para a minha mala, nos instantes que antecederão a partida. Na urgência.
E ainda organizar aqui planos A , B , e C , para a mãe, os cães, as meninas já maiores de idade que ajudam mas tambem demandam, a casa, pedir ajudas aos outros filhos, tanta coisa, mas se der certo, e dará, do domingo em diante irei sumir, mas volto. Ainda nem contei aqui tudo que me aconteceu e que vi na última viagem!



(foto da chegada em casa(?), ao entardecer, na segunda.)
São sempre surpreendentemente bonitos a aurora e o ocaso, aqui em Cabo Frio. Como os de lá, no Palmital. Não há um dia em que não tenha que parar para olhar os brilhos em que a luz plena e abundante neste lugar se transforma. Sinto-me em estado de oração à própria vida e existencia.
Coisa boa, na lista de avaliações no " ter mudado".

No domingo ao entardecer, agasalhada sob um frio intenso, ouvia os sinos da minha cidade. Cidade aristocrata, como sempre quer e engana-se ser. Uma bela e comovente musica, sem duvida, soada pelo poder dos encastelados, nas torres de um castelo, desses que encontramos formando os lugares de encontros e passeios a que chamam praça no Brasil, e castelos chamados igrejas. O chamado ressoando entre as montanhas. As ordens dos senhores temporais travestindo-se em senhores espirituais.
Mas assim é em toda urbe.
Sinto falta do clima, do frio, coisa ruim, ter mudado.

Revelação requentada:

Minha implicância com o tal do Deus-seja-quem-for é porque ele é macho! E só conheço macho-humano bastante irresponsável, negligente, egoista e vaidoso. Exatamente como identifico os deuses-homens. O que falta para que eu me renda ao que intuo é uma deusa, não apenas aspectos da deusa, que se vê em diversos rituais de diversas culturas, mas a Deusa- já apresentada conceitualmente em "Deus-Deusa tudo que É" ou RadhaKrsna, ou uma divindade maior do que a vida, maior do que esta mesquinha dualidade macho-fêmea, o uno que nosso idioma não comporta, pois o faz no masculino e a UNA tambem o reduziria a apenas um gênero, novamente parte do Todo. A questão então não é o SER, mas a PALAVRA, o Logos reduz o Ser, afasta do conhecimento, limita o infinito.
Lembrei-me agora de uma conversa tida durante a festa de um casamento com dois jovens genios em musica e surpreendentemente sábios para a idade, onde se dialogava aos moldes socráticos se musica ou a fala/escrita poderiam ser uma linguagem mais verdadeira para atingimento da compreensão. A conversa deliciosa deixou em aberto a questão, cada um convencido do que já o era, mas certamente passando a refletir e investigar sobre todos os argumentos, como fez comigo.

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segunda-feira, 14 de junho de 2010


Em CABO FRIO, RJ, encontrei GUARÁ ( garça ) TING ( branca ) ETÁ ( muito ).
Fiquei pensando na quantidade que deveria existir de garças, para que aquele local em SP fose assim denominado. Depois lembrei-me do trabalho de uma pesquisa em toponímia ( corrijam-me no que estiver equivocada ) que afirma que os nomes dos locais em idioma Tupi em muitos lugares não foram dados por correspondencia ao que significam pelos indios, mas atribuidos a algum local pela sonoridade ou até interpretação equivocada pelo colonizadores.




Em IBIÚNA, SP, encontrei um altar para direcionar orações pelos que não chegaram a nascer.


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A VIDA e A ARTE



A primeira foto, de Buzios, em 2009. A segunda, de Cabo Frio ,poucos dias atras; perdi os meninos sobre a ilhota no tempo que levei para frear e pegar a câmera. Quase! Quem sabe algum outro dia. É onde passo para sair de casa.

* * * GRATIDÃO * * *


À  vida, à natureza, aos meus ancestrais, aos amigos,  aos meus irmãos e irmãs, aos meus filhos e filhas, sou
grata !


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sábado, 12 de junho de 2010

Aqui estão os casamentos




e aqui a poeira...


2110 Km percorridos, 11 dias, num passeio intenso, diversificado e feliz. Onde cumpri satisfatòriamente diversas obrigações. Onde aprendi muito, das coisas que vi, mas principalmente de mim.

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

O CANSAÇO


Ou, LUTANDO COM MEUS DEMONIOS

Já ao sair de casa e principalmente no dia seguinte ao casamento do meu irmão, quando saí da casa dele, contornando S. Paulo sob pressão do rodizio de placas e da pressa pela necessidade de cumprir compromissos anteriormente assumidos, alguns dos meus demonios tentavam me consumir, então não tendo esperado meus anfitriões acordarem - eu estava na casa dos recem-casados, segui. Calma, não é mico, não, nem abuso, outros membros da família estavam tambem lá, ou estávamos todos micando e abusando, mas haviamos sido intensivamente convidados. Afinal, o casal já era casado, quero dizer, viviam juntos há alguns anos, todos já havíamos sido recebidos e hospedados por eles, nesta ou na casa anterior...
Então fui atingida em cheio pela auto comiseração, filha da minha vaidade, por não ter podido entrar de braços no templo, com meu irmão. Afinal, ele havia me escolhido para sua madrinha. Já o sou do batismo. Mas não pude atender ao convite. Não havia a menor possibilidade de expandir meus gastos na fase em que estou.

Vaidade e mágoas : porque estou nesta condição, buscando culpados que não eu mesma,pelas minhas escolhas. Vaidade e dores, rejeição. Chorei até a fronteira de S. Paulo com o Est. Do Rio. E aí parei. Senti vontade de fotografar a paisagem que via, parei, fotografei. Ocorreu-me que em S. Paulo não sentia vontade de fazer isso. Na ida, temor, ansiedade e excesso de velocidade impediam. Na volta, uma bobeira que me surpreendeu, tão logo me apercebi, mas que levou a um grande balanço durante o total deste percurso, feito até ao anoitecer deste dia. E que me rendeu a contemplação de paisagens que há muito eu não via nem lembrava e a admiração pela rodovia reformada, bem diferente da precária, da qual eu me lembrava ( Volta Redonda _ Tres Rios )

Então, tudo o mais dos dias seguintes trancorreu ainda com um certo peso, e um cansaço maior. Viagem ao fundo de mim , enquanto viajo para longe de raízes , deixando pedaços pelas estradas. Por lugares que raramente passo, não me lembrarei do que fui abandonando.
Sem necessidade de funerais.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dois casamentos, nenhum funeral, mas muita poeira


Cheguei em casa ontem à noite, e pela primeira vez exausta. Costumo chegar sempre na maior agitação, empreendendo faxina ou até me aventurando a sair de novo à noite para, por exemplo, buscar pizza. ( Coisas que detesto, sair à toa, à noite e pizza, mas submeto-me às tres.) Quando chego, no mínimo após a faxina da casa, retirada da poeira que acumula em minha ausência ( se bem que muitas vezes na minha presença tambem, mas não é dessa poeira que vou falar, nem tão prosaica...), chego-me ao pc, atualizo e limpo caixapostalvirtual, emails, facebook, orkut, blogs, baixo as fotos do dia, talvez consequencia e efeito de tanta cafeína que tomo enquanto rodo em rodovias por aí, talvez efeito do excesso de serotonina que me invade quando estou na estrada, com um tanto de adrenalina. Por isso meus passeios-visitas costumam ser curtas. ( estou com um desejo quase incontrolável por parênteses hoje, aqui, mas sigo retirando-os, sem retirar os..."parênteses" ) Tambem não é cansaço pelos 2110 km rodados nestes dias. Este texto vai ser longo e tedioso, certamente, exceto para mim, quando vier revê-lo. Portanto, amigos, um parágrafo talvez a mais de tolerancia e podem parar, sem remorsos. Ou parar agora mesmo.
Dessa vez a faxina foi outra. E isso me cansou. Mais do que ter voltado para casa trazendo os dois netinhos, com menos de quatro e menos de dois anos, o que numa viagem longa, é algo problemático, principalmente se sòzinha. Mas nem foi. ( Calma, Cacá, vieram bem, só uma parada repetina para o cocô de praxe do Gabriel e outra por uma choradeira do Davi, pelo mesmo motivo, necessitando troca de fralda. De resto, para passar o tempo já que não estavam com sono, contamos caminhões - "mais de cem", cantamos como bichos, uivamos como "cachorro lobo", balimos, rimos, miamos, cacarejamos, foi bem e chegaram na maior pilha, foram dormir por volta de meia-noite. É filha, assim não dá para ficar calma, né? Mas hoje já voltou ao normal)
Mas voltando ao tema, dois casamentos, um em cada fim de semana, um de cada ritual diferente daqueles a que já estou habituada a seguir, foi algo bem interessante.
O primeiro em um templo ( Centro?) Seicho- No- Ie , o segundo do Santo Daime. Um, paulista, outro, mineiro. Tentando abstrair minha condição de irmã/cunhada dos noivos e madrinha renunciante no primeiro, da de mãe-da-madrinha-grande-amiga do segundo, foi bastante interessante observar...tudo! Um olhar antropológico. Objetivo. Se é que isso é possível. Sem discorrer sobre questões técnicas sobre o olhar- participação do antropólogo, blábláblá. De equivalente, nos dois, o nível intelectual e cultural dos noivos e convidados, se bem que de áreas diferentes do saber.
Tantos parênteses, uma tentativa de desembaralhar meus pensamentos. Forço-me a alinhá-los, fragmentados que estão porque fragmentada está minha razão. Agentes externos, certamente, mas principalmente por fatores internos, a necessidade de um despojamento da alma desfeita em pedaços, fragmentos que se haviam somado, agregado, sem nexo ou ordem, numa participação quase sempre inoportuna, apostos pelas dores, aflições, amores, afeições, que me foram consituindo. De repente, uma necessidade de permitir que alguns desses pedaços, partidos, partam para bem longe de mim. Que se abram espaços para outros, novos.
A poeira ? Aquela que levantei, passeando pelas estradas e desvios que escolhi entre um e outro casamento, na distancia e no tempo que os separava.
Mas tudo isso será outra história. Outras.

sábado, 29 de maio de 2010

FUI !!! Mas volto ! E agradecida por me acompanharem.


Preparando-me para seguir mais uma viagem ou melhor seria dizer, um passeio circular, já que vou chegar aos mesmos lugares, com uma passadinha rápida por um casamento em Ibiuna, S. Paulo, um pequeno circuito a ser iniciado as 4:00 hs da matina deste domingo em Cabo Frio e com fim previsto para as 20:00hs da segunda em Viçosa, MG, perfazendo 1650km, onde vou pousar por mais ou menos 24hs, antes de seguir adiante, como sempre por necessidades que transformo em prazer; estava pensando em algo que tem me ocorrido enquanto dirijo. Mais uma das "reflexões de viagem". É que depois que passei a frequentar também estes espaços, a tal "blogosfera", nunca mais viajei sòzinha. Porque em diversas curvas das estradas ou rodovias, deparo-me sempre com um amigo. Ou "pegando carona" na fé do Rubinho Osório sempre que vejo qualquer prédio de qualquer Igreja, mesmo as que não são evangélicas ( Existe igreja não evangélica? ), ou apreciando a "Arte Cemiterial" da Martha, varais do Eduardo PL, coisas do "tempo do onça" do Marcos Dhota(Caríssimas Catrevagens , alguns amigos, por contingencias das viagens, estão comigo frequentemente, como oimpressionista quando acelerada, lembro-me de uma postagem ou comentario seu antigo onde falava do sentimento de risco por rodar em alta velocidade em meio aos canaviais, ou recentemente ao levantar poeira vermelha, ou oÁrabe, cujas palavras sempre me tranquilizam, quando agitada, o que é frequente por estes caminhos, rementem-me a verdadeiros oásis.Outros amigos mais recentes, como o Cadinho RoCo, encontro quando ando passando pertinho de Grussai ou chegando lá pelas bandas mineiras perto das belohorizontinas, onde encontro tambem a Ana Paula e a Danitza, os poentes marítimos me aproximam do Tossan, ou sentindo-me andarilha, encontro com a Paula Barros , ao olhar qualquer muro ou casa roxa, que se tornam mais frequentes, encontro o Ricardo Soares, penso em como a SÃO sentir-se-ia conhecendo nossas maravilhas coloniais, sem contar uma imensa quantidade de "Vatours" que encontro "pelaí". Quando opto em ir pelo ramo norte das minhas possibilidades e esta palavra faz-me encontrar a Selena, e não pelo ramo sul, desviando-me de Petropolis, sinto saudades da minha cidade e ao pensar nela, encontro-me com a Re ou a SerradoMar. Outros que agora passam aparentemente esquecidos, mas de repente atravessam meus caminhos. Gente, agradecida por tudo! ( Mais uma carona do Rubinho, o Osorio, né.)
Ah! Como ficaram amigos fora desta página, desculpem-me, mas tenho que rever a mala, revisar a roupa de domingo para o casório, tenho que ceder o espaço da única máquina internética da casa para as filhas, e ainda almoço, faxina, etc. Volto outra hora ao mesmo assunto, o mesmo de sempre, viagens e "viagens"

sexta-feira, 28 de maio de 2010

ÓIKIVÔ ÓIKINUMVÔ

Da ross di Mins pra Sumpaulo pra módi i nu casório do mermão rapa di tacho, i di sua muíé ki já são casadu di morá junt um tempão e déru dinventá di fazê festagora i êis ki são danadi chic vão fazê um casório danadi chic i qué ki eu sej madrinha, vê si pódi, pra módi tirá o sussego, ki nem rôpa chic eu tem nem sei usá. É bobo, ki rôpa só a di dumingu messm, vão passá é vergonha di mi botá nu artá, mas mandaru até mensagi nu celulá ki eu tenhdiir, apelandimaiss prus sentimentu da véia, i s'eu mi perdê na cidadigrandi i num chegá a temp? É dumingagor...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nem sei o que dizer

PAZ



Quando se fala em "amar ao próximo como a si mesmo" duas coisas ou questões me vem ao pensamento, a partir dos comportamentos que observo.
A primeira, uma tendência em remodelar, reformar o próximo para que fique á imagem e semelhança de voce mesmo, e que assim se torne fácil de ser amado.
A segunda, a dificuldade em amar a si próprio, uma tendência a pensar que o próximo deva estar em primeiro lugar, a aceitação em dar a outra face. Ora, se aceito apanhar na face repetidas vezes e desejo ao próximo o mesmo que a mim, isto então não é amor, é apego ao sofrimento coletivo. Desejo ao próximo o mesmo sofrimento que tenho.
No segundo caso, o amor de si e cuidado de si é a base para o amor de todos.
No primeiro caso, mais difícil, a aceitação das diferenças, das variáveis pessoais, estender a mão para que quem está caído se levante para seguir seu próprio caminho, sem pretender arrastá-lo pelo caminho que achamos o melhor, que pensamos que escolhemos para nós.
Aí estaria a chave da harmonia: na compreensão do que nos é estranho ou até aparentemente inaceitável, na aceitação do que classificamos como absurdo e incompreensível. A capacidade de viver, apenas, a vida, amando o que vivemos.
Estas são as minhas chaves, para onde gostaria de seguir, como tambem as chaves do tesouro que gostaria de receber. Em função do mal que sofri.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Considerações

Divagações ao volante do meu "quartomóvel" enquanto vou de lá para cá ou vice versa
Muitas eu perco pelos caminhos, outras faço pequenas anotações e uma parte delas compartilho, outras apenas com meus cadernos a serem lidos pòstumamente, não porque me envergonhe de meus podres, envergonho-me sim, mas faz-me bem lavar minha roupa suja aqui, mas porque envolvem outras pessoas que tem direito a sua privacidade. Até porque não quero ser processada.



Tenho passado, em meus novos trajetos, por aqui e sempre que vejo esta pedra, quero dizer, esta formação rochosa, chamo-a de "a pedra da caveira", aquele cocoruto menor, e me faz lembrar a caverna do fantasma, sabem, aquele personagem de histórias em quadrinhos, que lia na adolescência, época em que lia absolutamente tudo que me caia às mãos, fotonovelas, HQ, clássicos da literatura, ficção contemporânea, bem isso seria outra postagem, aqui, na viagem desta semana, o que vim pensando foi, - aquele Fantasma da roupicha esquisita, meio boyo...ops, polìticamente incorreto, pensamentos censurados, parece até o nome que eu queria dar ao cachorrinho que apareceu lá na ecovila esta semana, um cão jovem todo negro, lindo e pensei " Negão" ou "Neguinho" mas ops, polìticamente incorreto, pensamentos reveladores de preconceitos em meu subconsciente, já que na prática cotidiana não sou assim. Ou será que são reveladores da criação que tive - lembrem, minha mãe - e que trabalhei e trabalho intensamente para superar. Ou será que tais pensamentos surgem através de impressões deixadas pelos " poderes simbólicos" , da sociedade em que vivo? Informações subliminares transmitidas pelas mídias? O que faz com que sejamos o que não queremos ou pensamos que somos, a imensa distancia " entre intenção e gesto" de que falam Paulo de Tarso, Agostinho, Chico Buarque, ou então será que estes pensamentos "polìticamente incorretos" foram criados a partir do estabelecimento deste conceito, onde antes havia liberdade de pensar, agora existe uma autocensura, um pensar-coletivo-inserido-no-meio-do-qual-faço-parte ? "Peço ajuda aos Universitários..." ( eu vi uma vez isso em um programa idiotizante da Imbecilizão). Aos pensadores especialistas ou não, que dêem seus pareceres, para meu crescimento.
Mas em meio a estas reflexões, alcancei a resposta a uma pergunta que minha filha a primogênita, uma intelectual acadêmica ( das boas, não é corujice não, porque sabem que sou dura e exigente) e que lê meu blog, o que muito me honra, me fez este fim de semana- do por que, se gosto tanto de escrever, não concluí minha segunda graduação, ficando dependente da elaboração da monografia apenas e na hora respondi qualquer coisa, que também é verdadeiro, tipo, o pc que precisou ser reformatado deletou os dois capítulos iniciais, mas ainda vou fazer, mas a resposta verdadeira, a fundamental, é que não sei escrever sem liberdade. ( Não sei viver sem liberdade) E ter que me submeter àquela enorme quantidades de regras do abnt, ou da instituição onde fazia o curso, é absolutamente impossível; escrever um texto engessado em normas,formas, além das gramaticais, me faria não ser verdadeira e como poderia assinar um texto falso?


PS com direcionamento específico: Por isso, eu acho, filha, que voce está com dificuldades tambem para concluir algumas tarefas escritas: a necessidade de harmonizar contrários e contraditórios de forma "acadêmicamente aceitável". Eu, velhinha aposentada, posso me dar ao luxo de não escrever o que não gosto ou só escrever o que gosto. (Viva a liberdade!) . Voce ainda é prisioneira deste sistema e será ainda algum tempo, então mãos e mente às obras, quero ler mais e aprender muito com suas composições. Liberte-se e escreva. Livre-se das patrulhas intelectualóides, seja apenas voce mesma com sua bagagem cultural e intelectual. Vão se abrir mentes e corações dentre aqueles que tiverem o privilégio de ler do que que voce sabe.

CHOMSKY E AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

Copiei do site do Instituto João Goulart

Link AQUI


publicada em 21 de maio de 2010

CHOMSKY E AS 10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA

O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia:


1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.



2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.


3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.


5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.



6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…


7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.



8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE

Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…



9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!


10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

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