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sábado, 17 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 10






A VIAGEM DE VOLTA
O que dizer, além da enorme tristeza por ir embora?
Que as águas estão mais baixas, que alguns obstáculos a mais surgiram, a voadeira bate com mais frequência em troncos submersos, oscila mais, como se a própria natureza quisesse convencer-me a ficar. Resta-me apreciar as belezas das matas e das águas.
O processo é o mesmo, inverso, na fazenda troca-se a embarcação por outra um pouco maior e mais rápida, já lanchamos o que nos foi levado na despedida, uma deliciosa pizza de cenoura e cogumelos temperada com dendê. E adentra-se ao Purus. Agora é necessário transpor um banco de areia que na ida estava submerso, a barra do Mapiá. Vai, vai, e finalmente a voadeira passa ao outro lado, às águas do Cuxiuará.
Na ida, descemos o Purus, a favor da corrente e sobe-se o igarapé; na volta, descido o igarapé, sobe-se o Purus. Uma voadeira que segue quase com a gente, bate forte em algo oculto pelo Purus, felizmente nada grave, só um susto, estavam próximos demais da margem. E de repente começo a ver mais gente, um caminhão na praia, casas, como é possível, não vi nada disso na ida... Chegamos à Boca do Acre. Jáááá? Tão depressa assim? Os relógios mostram o mesmo tempo, a mesma duração. Meu coração não.





CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 9


O ADEUS

Que espero muito ser um "até breve".
Já antes de sair, ao arrumar a mala, estava com dificuldades, coisa que nunca me ocorre. Gosto de voltar para casa, mesmo sabendo que quando chego, já quero partir de novo. Talvez porque nunca senti minha casa como um lar, um lugar para ficar. Sempre foi mais um abrigo de passagem. Durante muitos anos porque vivia quase tanto no trabalho quanto em casa, depois pelas oportunidades de viagens, que tanto gosto, e que a vida me proporciona. Nunca em nenhum lugar, me sentia em casa. Costumo dizer que o problema é que me perdi de minha tribo logo ao nascer e passo a vida procurando. Mas aqui foi diferente. Acho que uma grande parte da minha tribo veio parar aqui. Fizeram escolhas, vieram a partir dos anos 90, do sul, sudeste, norte, nordeste. Encontrei gente aqui de todos os lugares do Brasil e de alguns do resto do mundo: irlandeses, norte-americanos, paranaenses e paraenses, paulistanos, mineiros, cariocas , fluminenses, todos em busca daquele algo a mais que os aproxima da vida verdadeira. A afetividade demonstrada pelos vizinhos que se visitam sempre - aliás, a maior parte dos caminhos para as casas se fazem por dentro dos jardins das outras casas, pouco existem ruas. Ações que via em minha infância, como levar ao amigo do pão ou do bolo que voce fez hoje - e todos são amigos, sem distinções de classe social , ou distinções acadêmicas. Os doutores acadêmicos, escritores, partilham suas vidas com os ex-seringueiros e pescadores, com analfabetos, que ainda existem, principalmente entre os mais velhos e que vieram no primeiro movimento migratório trazendo uma imensa sabedoria da floresta e do homem; ou os que chegam agora, buscando esta "ilha de prosperidade" em meio à mata; a "lavadeira" convida quem lhe contratou, para um almoço de domingo, num domingo, e lá fomos nós, banho de igarapé - cuidado com a arraia, é preciso cutucar com uma vara o fundo de areia do igarapé, antes de se aventurar, os ferimentos que produzem são terríveis - e um almoço delicioso, simples com um tempêro divino. Embora exista televisão, não se perde o costume de visitar e prosear com os amigos. E são todos amigos. Foram muitas as visitas e retribuições. É "de lei"
Mas chegou o dia, não queria ter que ir embora, mas tenho outras pessoas a minha espera, compromissos ( irhc!). E não queremos pegar o Cuxiuará ( Purus) à noite. Ouvi cada história, de monstros e desaparecimentos inexplicáveis... Com pessoas reais, conhecidos de conhecidos.
Alguns dos que vieram no mesmo dia que viemos, já haviam partido, em outros dias, outros ficarão. Alguém busca meios para poder ficar de verdade.
Canoa carregada, lanches prontos, abraços, lágrimas engolidas, outras escapam, seguimos.


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quinta-feira, 15 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS -8





DAS CASAS










CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 6


A Santa Casa
05/06/2010

Hoje, as segundas, é dia de mutirão na vila. Todos realizam atividades comunitárias: limpeza, capina, qualquer coisa necessária à comunidade e organizado pela associação de moradores. Fui dispensada da função Vovó, para atendimento no posto de saúde. Há já um certo tempo não há médicos aqui. Mas não vejo porque seriam necessários, já que há um Centro de Medicina da Floresta, com produção de medicamentos fitoterápicos, remédios florais da Amazonia, inclusive com referência internacional.
Conforme eu previa, mesmo tendo sido anunciado no alto -falante da vila o atendimento médico, só apareceram tres pessoas, buscando " remédio de vermes". O que me chamou atenção foi que as prateleiras de remédios - amostras grátis - dispunham de uma grande quantidade de medicamentos que em nenhum outro posto em que trabalhei em tôda minha vida "esquentavam prateleira". Ou seja, não há demanda por remédios, porque pouco se adoece. Fiquei sabendo que a oferta dos medicamentos não é grande. a demanda é que é inexistente.
Porém, a Santa Casa, local de atendimento espiritual à saúde atende a uma demanda regular, sempre. Investiguei, os indicadores de saúde são ótimos. Não há aqui o vício em doença. Aquela necessidade que vi tôda a minha vida profissional da afirmação psicológica e emocional através do adoecimento. Busca-se de fato condições de saúde.
O posto de saúde é próximo à Santa Casa, com gabinete médico, odontológico ( tambem não tem dentista - esse, sim creio ser necessário) e um centro de diagnóstico e contrôle da malária, com laboratório, funcionando, com equipe inclusive.
Já foi sonho antigo trabalhar assim. Em outras épocas, cheguei quase a transferir-me para a Amazonia, já tinha contatado emprêgo em outra região no entanto, mas fazer planos para a vida contraria os planos que a vida faz para a gente e não fui. Hoje em dia estou presa emocionalmente aos netos, aos filhos e filhas que não sairiam do sudeste maravilha e sou dependente da companhia deles. Mas continuo a sonhar, quem sabe, um ou dois meses ao ano, sonhos não devem morrer.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 5

em 21/06/2010, a tarde

Deus existe! E Êle é à minha imagem e semelhança. Como eu, Êle adora fazer jardins. E põe nisso tal desvêlo que por vêzes até esquece suas outras funções. Os jardins divinos que vejo aqui são a coisa mais bela que ja pude imaginar. Tal combinações e variedades de espécies, ou trechos e repetições, é algo que só um magnífico paisagista conseguiria imaginar ou fazer. Não é absolutamente acaso os jogos de simetrias, proporções, podas, estruturas das bases, tudo, tudo é perfeito.


27/06/2010, tarde

Vários tipos de mosquitos, pernilongos, carapanãs e sei lá mais o que, um calor terrível, carrapatos, restrições prolongadas ao meu ir e vir, tudo que detesto, e no entanto estou amando estar aqui. O que está me acontecendo? Não quero ir embora.

29/06/2010, manhã

Aqui voce fica perdido nas horas dos dias e nos dias. Não é só por conta do fuso horário, estranho, mas por uma estranha confusão produzida pelo sol e sombras. Custei a descobrir o nascente e poente. Nesta pequena clareira que comporta uma casinha e seu jardim, o sol é visto pelo reflexo nas copas das árvores, mais do que permite ser visto ao atravessar o céu.


29/06/2010, tarde

Uma caminhada pelas trilhas, no entorno da casa. Para todo lado vê-se referência às chuvas abundantes, os tempos de lama e atoleiros. Rampas de madeira sobre o solo agora seco. Passarelas sobre poças d'agua agora inexistentes. Só areia. Das flores, só sinto os perfumes, dos animais, só ouço os sons de rastejares entre folhas secas, os cricrilares e outras vozes. E os sons domésticos, galos, crianças, ferramentas.

30/06/2010, noite

Não chove, as águas do Igarapé estão cada dia mais baixas. Os dias estão cada vez mais quentes, mas eu esperava que fosse pior ainda. Alguns dizem que em continuar assim as voadeiras não poderão seguir. Será que meus desejos serão realizados? "Ficagem" compulsória?

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 4


NA VILA

Pensava que o calor seria insuportável, mas dei sorte. Na casa em que fiquei, é até bem tolerável. A casa é rodeada de árvores, do pomar, criado e agora sendo transformado num regime de agrofloresta, além de ser relativamente pequena a clareira aberta para esta casa. Quase não dá para ver o céu, se considerar a amplidão que via durante a viagem, nas imensas planícies, mas em compensação dá para viver confortàvelmente. É só não sair de casa. Porque se andar ao sol, aí a coisa é diferente. Não adianta chapéu, nada. Então saia pouco. Até porque as crianças não merecem ser torradas. Sair cedo ou no final da tarde não é recomendável devido ao risco da malária. No meio do dia o risco de insolação ou intermação é alto. Até o pequeno comércio da vila fecha entre onze e quinze horas, "mais ou menos". Isto faz com que o tempo aqui tome dimensões diferentes. Tudo anda mais devagar. Poucas coisas se fazem na hora combinada. Os acordos de encontros se fazem "aproximadamente". Não há stress, não há tensões pelos compromissos. As coisas fluem ao sabor do tempo, digo, do clima. Mas tudo vai acontecendo.
A grande surpresa foi a existencia de um centro de mídia. Uma rádio local e uma central de internet. Que funciona enquanto os geradores de luz estão ligados. Quando tem luz, tem wireless, para quem tiver laptop. Aos demais, alguns computadores para uso comunitário. Não usei, porque estava lá para outras funções, não me cabia usar o tempo para autorecreação. A escola tem tambem diversos computadores para os alunos e professores e o segundo grau funciona com a modalidade de ensino à distancia com presença de professores/monitores. E o nível é excelente. Conheço algumas pessoas que sairam daqui diretamente para universidades federais, sem o regime de cotas. Pura capacidade. As casas na sua maioria receberam de uma ONG painéis solares, o que permite a muitos, televisão, geladeira,até máquinas de lavar roupa, com moderação, pela propria opção dos moradores. São cerca de 600 residentes, segundo me disseram. As casas espalham-se entre trilhas da floresta. Saindo do centro da vila, não se vê os vizinhos. Alguns são ouvidos, principalmente as bombas d'agua, dos que não tem bomba elétrica, os que usam bombas a gasolina. Em alguns horários, ouve-se uma, outra, tres ou quatro. Ouve-se tambem os roncos das voadeiras chegando ou saindo. Mas ouve-se principalmente os sons da floresta: cantos de pássaros, insetos e macacos. Alertam-me contra serpentes. Que me dizem para não falar o nome, para não "chamar" Não se fala "cobra", fala-se "inseto". Os macacos fazem uma tremenda algazarra frequentemente. Mas são todos invisíveis na mata. E não sei se trote com a turista ou se verdade, me avisam para tomar cuidado com as crianças à tardinha, pois diversas vezes viram onças no local. Só esqueceram de me avisar dos micuins. Quando fiquei sabendo, já era tarde! Sabem, aqueles microcarrapatinhos, que aqui tem proporções amazônicas, ou, exageradas: o que é grande, é grande, o que é pequeno, é pequeno mesmo. No segundo dia, comecei a coçar e coçar, procurava durante a noite sem dormir, até com uma lupa e nada via. Na manhã seguinte quando minha filha acordou e pôde me ajudar eu já estava totalmente infestada, no tronco. E aquilo, mesmo após ser removido, continua a coçar e coçar, por dias. Cheia de placas vermelhas, coçando sem poder coçar, para não dar feridas. Remédios da floresta, cheguei a ficar de cama, por uma reação imunológica no dia seguinte ao "acidente". Pelo menos a partir deste primeiro "contato" fiquei esperta: só peguei uns novamente na véspera da partida. Porque abusei, fui aonde não devia, mas como sabia como proceder tão logo chegasse em casa, não houveram mais grandes problemas. Mosquitos, pràticamente não vi ou senti. Mas também não abri mão dos repelentes e à noite, dormia com moquiteiros.
Fiz diversas caminhadas em trilhas da floresta e além da beleza das matas, fiquei encantada com os perfumes que toda hora me invadiam. Quase não avistava flores, talvez pela altura que as árvores alcançam,ou pela densidade da mata, mas percebe-se a existência delas pelas diversas fragrâncias que sentia. Bom demais. Sempre que o Davi ficava irritado, seja pelo que fosse, bastava colocá-lo no carrinho para passear que logo meu baixinho se acalmava, na floresta.
Impressionou-me o solo. Aquela estória da desertificação, da pobreza do solo quando desmatado, vê-se bem ao caminhar. Qualquer chão que se pise, mesmo estreitas trilhas, ou ao redor das construções, é pura areia. Uma areia tão fina que mais parece poeira. Quase branca de tão clara. Não se vê terra, solo fértil, como se vê em desmatamentos da Mata Atlântica.
E o céu à noite, é um capítulo à parte. Devido a pouca luz elétrica, estamos infinitamente longe de qualquer cidade e os painéis solares permitem uma ou duas lâmpadas por casa, separadas pela floresta e que ficam apagadas sempre que possível , a via látea toma um aspecto magnífico. É impossível não sair um pouco à noite para ver o céu, tôdas as noites. Depois que acabou a lua cheia, porque na primeira semana, a lua era tão brilhante, que quase parecia dia. Nem precisava-se de lanternas para se caminhar. E depois, as estrelas.





segunda-feira, 12 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 3


NAVEGANDO NO IGARAPÉ

De repente, a voadeira vira 90 graus, e aponta à esquerda. Minha filha espanta-se com a nova imagem do Igarapé Mapiá. Pouca água, estreitou muito, ela diz. E eu que achava que igarapé era um riachinho, espanto-me com a largura, aproximadamente 5m. Enquanto navegamos rio acima, volteando em inúmeros meandros, explicam-me que o percurso é assim sinuoso apenas na seca. Nas chuvas, a água sobe tanto que as voadeiras não precisam seguir o curso dos rios, seguem quase em linha reta por atalhos, onde hoje é terra firme e floresta. Duas horas a menos de viagem, dizem, mas sob chuva. Dizem-me do quanto é lindo navegar dentro da mata. Pronto: aumenta o "gosto de queromais"; ainda nem cheguei ao destino e já desejo retornar nas cheias. Mas agora, não há retas, apenas curvas e curvas e em menor escala o que ja havia visto no Purus; troncos arrancados de um lado, praias do outro. Aqui, torna-se mais claro o porque da fertilidade das praias. Vê-se com clareza as camadas de sedimentos, alternadas: folhas e restos organicos alternados com areias. a quantidade de troncos e raizes no meio do rio é enorme. As vezes contornado, outras precisamos nos abaixar para passar por baixo. Logo no início, o Nildo adverte; " primeira cachoeira" . Assusto-me, pois o que conheço como cachoeira é...cachoeira. Aqui é apenas uma correnteza um pouquinho mais forte. Ufa! E logo paramos na Fazenda. Uma fazenda, mesmo, onde vamos comer algo ( que trouxemos) enquanto aguardamos a troca de canoa e o descanso do canoeiro. Trinta minutos, adverte. Já estamos atrasados. São duas da tarde. E se preocupam com a chegada da noite. Serão mais quatro horas de barco. No Purus ficamos pouco menos de quatro horas tambem. Nossa! Nem senti o tempo passar! Subimos caminhando por uma trilha que minha filha diz que nunca havia visto, pois quando veio, das outras vezes, as águas chegavam lá em cima. Fico pensando nas nossas regras das cidades, onde um motorista não pode dirigir um ônibus por mais de duas horas, é necessário pausas e revezamentos por questões de segurança. No rio, o canoeiro, credenciado pelo ministerio da Marinha fica no contrôle por 8 horas ou mais.
Comemos, demos banho nas crianças, para refrescar um pouco, o calor já é insuportável, além dos mosquitos. Acabo de descobrir o que fui fazer mudando-me para Cabo Frio: sem que eu soubesse, a vida já estava me preparando, aclimatando, para esta viagem que eu nem imaginava que iria acontecer. Calor e mosquitos. Repelente e abanos. Meu genro resolve aproveitar para visitar um amigo que mora na fazenda. Consequencia disto tudo, um pequeno atraso para a partida.
Seguimos volteando entre praias, troncos caidos, vegetação das margens. Aqui e ali uma ou outra canoa, um ou outro rancho, às vezes divisamos rostinhos de crianças entre as árvores das margens. Muitas das canoas que vejo ainda são aquelas construidas e escavadas de um só tronco de árvore. Técnicas rudimentares (?) de nossos indígenas e caboclos.
Estou encantada pelas formas que surgem das águas. Os troncos que foram arrancados parecem verdadeiras obras de arte. Esculturas dignas de figurar nas melhores galerias. Penso em Krajcberg. Muitos desses troncos ou galhos movem-se constantemente ao sabor da correnteza, numa dança interminável, muitas vezes assumindo um aspecto macabro, outras pura arte. Descem e sobem ou lateralizam-se, infinitamente. (Fotografo tanto, que agora nem sei escolher qual vou postar). A maioria das formas é tão incrìvelmente linda, que contrui um catálogo de arte. Muitas se antropomorfizam, outras assumem formas animais, outras ainda puro abstracionismo.
O riacho da minha imaginação, assume proporções majestosas. Algumas curvas alargam-se em verdadeiros lagos, onde refletem-se a beleza das árvores. Em muitas praias voam miríades de borboletas. Aqui, quatro ou cinco metros de largura, logo na próxima curva atinge mais de dez metros. E assim vamos. A profundidade não sei avaliar, mas parece pouca, já que a todo hora o canoeiro precisa levantar e retirar a hélice da água, para não quebrar. E pára-se diversas vezes para reabastecer. Aqui o motor de popa (como conheço), foi substituido por um outro, que me informo, chama-se "rabuda" ou "rabo de jacaré", próprio para aguas rasas.
Numa dessas paradas, os meninos querem entrar na água. Saímos do barco, esticar as pernas, e de repente o Davi, que ainda não tem dois anos, sai correndo e se atira na água. Com tudo, e afunda. Vovó se joga atras e puxa o menino para cima. Ele já estava quase sem roupa , eu de calças compridas e blusa de manga comprida, afinal, não pretendia tomar banho no Igarapé. Pronto, molhada pela metade, refrescada, rezo para que não tenha comprometido a câmera. Êle adorou a brincadeira, quer porque quer repetir e quase consegue. Pulo muito atras dele, enquanto a Mamãe controla o de quase quatro anos, que tambem está na água. A maior choradeira quando temos que seguir viagem.
A grandiosidade da mata ciliar(?) me impressiona. Dei graças por ter vindo na seca. Afinal, com as águas quatro ou cinco metros mais alta, as árvores tambem vão encolher quatro ou cinco metros.
E os atrasos no embarque e nas paradas cobra seu preço. Anoitece. A canoa não tem farol. A princípio, o Nildo orienta-se pelo brilho da lua quase cheia nas praias e talvez pelo seu conhecimento de cada curva, de cada tronco do leito do igarapé. Perguntamos se não tem uma lanterna, que então começa a usar, mas parece que piora a visibilidade, considerada a velocidade em que seguimos. Alguma vezes batemos em troncos, a canoa oscila de um lado para outro, de certa feita quase caem as caixas de provisões, de outra, bate de frente em um tronco, que ao deslocar-se, arranha a perna do Davi, que chora muito. Não tem solução. Aqui não podemos ficar. Tiro os óculos, ponho dentro da bolsa, não posso ficar cegueta, caso consiga chegar, se os óculos cairem dentro do rio. Penduro a bolsa com documentos ao pescoço. Se virarmos, a pouca profundidade permitirá o resgate das bagagens, diz o barqueiro. "Sejaoque deusquiser!" Começo a brincar de tentar adivinhar em que momento seria feita a curva, oscilo, balanço, só me preocupam as crianças. Ainda não sabia de estórias de quedas, de certas palmeiras (esqueci o nome) que tem o tronco coberto de espinhos que podem ferir bastante quem vira sobre elas. A ignorância ajuda-me a não sentir tanto medo.
Então chegamos! Vila Céu do Mapiá. Uma enorme ponte sobre o igarapé, iluminada, surpreende-me. Desço do barco, começo a subir as escadas que levam à terra firme e que nas cheias ficam submersas e já no terceiro passo, não sei se cansaço ou tensão, meu pé esquerdo erra o degrau de tábuas, entra entre um e outro. Uma dor insuportável! Meu genro chamando, acima, para eu pegar o Davi que dorme, para que ele pudesse pegar o Gabriel e descarregar. Ninguém viu, eu não falei. Subo, contendo-me. " Não quebrou, não quebrou" . Mais alguns degraus, sento-me com o Davi ao colo, abro a bolsa, procurando no escuro e com apenas uma mão o vidro com arnica, da homeopatia, já que meus problemas de saúde não me permitem usar analgésicos antiinflamatórios. Tomo quatro, oito, sei lá, quase meio vidro dos tabletes. Não tenho coragem de olhar, deixo para depois. A dor começa a tornar-se suportável, enquanto começamos a caminhada até a casa onde ficaremos hospedados. Cerca de 1 km. Nem consigo apreciar ou sequer notar o que está a minha volta. Só quero chegar.
Um corte de cerca de 5cm, horizontal, em meio a perna. Um imenso hematoma se forma ao redor, outro logo abaixo do joelho, no lado interno da perna. Não quebrou, vou sobreviver. Espero. Não sou vacinada contra tétano. Sou alérgica a componentes da vacina.




onde não esta o rio, que nas cheias vai até a beirada das casas e algumas vezes até o pátio, ainda são construidas sobre pilares - como palafitas.

as borboletas

os sedmentos

uma canoa



(21/06/2010)

domingo, 11 de julho de 2010

Crônicas Amazônicas - 2


O PURUS

Contratada a embarcação, uma canoa de alumínio, com motor de pôpa, chamadas aqui de "voadeiras", talvez porque, como descobri depois, ainda são muitos os que usam embarcações - canoas - à remo, com critérios de escolha que eu desconhecia, são muitos os canoeiros que aguardam no porto, mas também são muitos os viajantes, principalmente nesta época, do Festival. É confortável ser acompanhante, não ser quem tem que decidir, fazer as escolhas. A vida toda eu fui pai e mãe, todos dependiam de certa forma, de minhas decisões e êrros de escolha trazem consequências muitas vezes terríveis. Sei bem disso.
Bagagens a bordo, finalizadas detalhes de compras de suprimentos, o canoeiro cobrando o atraso, são 10;30 da manhã, o atraso pode acarretar dificuldades pela chegada da noite, os outros já partiram em suas voadeiras, ficamos para trás, mas são duas crianças que têm certas demandas, é necessário comprar também coletes salva vidas para as crianças, as voadeiras só tem para os adultos, travesseiros para sentarmo-nos durante o longo percurso, água para beber, ter certeza de que nada falta, depois pode ser tarde. De qualquer forma, torna-se tarde. Seguimos.
Minúsculos pontos esparsos ao longo do Rio Purus, voadeiras "voando" outras canoas seguindo a remo, um ou outro batelão. Estamos na seca. A vazante expõe bancos de areia que podem encalhar barcos maiores. Logo entenderei.
Sob o imenso céu azul, cúmulus brancos e acinzentados criam a dúvida: irá chover? Temos capas de chuva, lonas para cobrir as bagagens, latas para retirar a água que se acumularia na canoa pela chuva, mas o Nildo garante, não irá chover. No inverno, sim, chove todo dia, muito. Por hora, é proteção contra o sol. As "queimaduras do Purus" são famosas. Mangas compridas, apesar do calor intenso. E bota intenso nisso, no barco suavizados pelo vento. Protetor solar, chapéus. Difícil manter os meninos com chapéu e coletes. Protestam, mas logo adormecem e podemos cobri-los para proteger do sol. Um ou outro, raramente os dois ao mesmo tempo. Mas isso facilita o contrôle. Somos tres adultos para duas crianças. Numa pequena canoa. Na verdade, das grandes. Quando sairmos do Purus e entrarmos no Igarapé do Mapiá, será necessário a troca por uma embarcação menor, pela pouca profundidade do rio nesta época. O motor de pôpa veloz, não tem condições de navegar na seca, então será usado apenas no Purus.
O barco ora vai para a direita, ora para a esquerda, no, para mim - imenso rio. Que espanta aos que estão comigo e já foram lá mais de uma vez, no "inverno", pelo quanto está vazio. Foge dos bancos de areia e dos troncos submersos, que agora, expõem-se parcialmente. Algumas vezes diminui muito a velocidade. Fico bastante admirada da técnica do barqueiro. Admiração que só vai aumentar ao longo da viagem e das dificuldades do percurso.
Cruzamos com outras voadeiras, conduzidas muitas vezes por meninos, com suas famílias eu presumo. Tão jovens com tamanha responsabilidade! Mas cresceram aqui. Aprendem a navegar logo que aprendem a andar. Não há estradas entre suas casas e de outros ou a cidade. Apenas o Rio. Mais tarde vi pais com filhos muito pequenos ao colo, já lhes transmitindo o conhecimento. Suas mãozinhas minúsculas cobertas pelas de seu pai, ao leme, conduzindo suas embarcações.
Ao contemplar as barrancas, e pelas informações que vou recebendo, imagino o que possa ser a cheia, quase metade do ano. São apenas duas as estações. As chuvas e o verão. O calor faz parte das duas. A diferença são as águas. O que me mostram é que o nível da água altera-se em oito ou dez metros, ás vezes mais. Penso na imensa massa de água que desliza. Logo sou tomada pelo desejo de conhecer o inverno também. Mas o que vejo já me deixa extasiada.
O que vejo é Terra Viva, em transformação rápida, intensa e extensa. A água revolvendo, arrancando as árvores e a terra, escavando de um lado do rio. Do outro lado, depositando-se areia, formando praias, que só são vistas na seca, e que são áreas bastante férteis apesar de arenosa. Plantam-se nestas praias, milho, mandioca, feijão, arroz. Colhe-se uma safra ao ano, abundante. Sobre as barrancas, em solo firme, os ranchos dos moradores, bananeiras, uma ou outra coisa que se pode divisar, mas estamos muito abaixo para ver direito. Ora de um lado, ora do outro, dependendo das curvas do rio, a parte côncava arrastada, na convexa formando-se em depósitos de sedmentos. Um pouco além da praia, formando-se a mata, grandes áreas de embaúbas, indicativas de floresta em recuperação. Ou em formação. Em toda praia, ancorada uma ou mais canoas. Estão cuidando das plantações. Mas quase não se vê pessoas.
Estou impressionada com o tamanho da árvores arrancadas e depositadas ao longo do rio, pela erosão. Alguns ranchos já estão tão na beirada que chego a temer pela segurança de seus moradores quando vier o próximo inverno.
Êxtase, êxtase. E de repente voce se acostuma com aquela grandiosidade, se torna parte daquilo. Simplesmente estou ali. Penso no que sentiu o Criador, ao ver o mundo se formando. Não encontro outra palavra para empregar, para descrever o sentimento. Isto é sublime. Magnífico.





( Em 21/06/2010)

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sábado, 10 de julho de 2010

CRONICAS AMAZONICAS

Do Rio para Brasília, onde encontrei uma parte do grupo que seguiria até Rio Branco onde já estavam meus netos, filha e genro que haviam ido pela manhã, para compra dos suprimentos necessarios, além de outras pessoas, para seguirem para o " Céu do Mapiá", no Amazonas. Minha filha, para dar inicio à sua pesquisa-ação, da sua tese de doutorado, os outros, a caminho do Festival de junho, evento importante da sua doutrina. Uma espécie de peregrinação, que mobiliza os seguidores do Santo Daime, com certa frequência, na medida do possível, atendendo a seus desejos e possibilidades financeiras. Eu, estranha no ninho, quase como turista, embora já tenha algum conhecimento dos princípios e regras que iria encontrar. Além de um grande desejo de conhecer o que em minha idéia, era uma colônia que mantinha ideais comunitários que eu buscava, nos anos 70/80 e que depois acreditei extintos, mas que vi em pleno vigor em Findhorn, Escócia, em outubro passado. Atraso na conexão do vôo, chegamos a Rio Branco às 3 da madrugada, já considerado o fuso horário, onde nos aguardava um microônibus e as crianças, alegres apesar do horário. Embarcamos todos, metade do ônibus ocupado por bagagens e provisões e seguimos. Cantavam hinos religiosos, numa alegria de encontros e reencontros, sustentados pela fé, até que aos poucos adormeciam. Eu não preguei o olho, medo de que um dos meninos rolasse e caísse do banco do ônibus, preocupação desnecessária, dormiam profundamente, os espaço entre bancos estava parcialmente preenchido com mochilas. O onibus balançava na rodovia, cheguei a pensar em falhas do motorista ou do ônibus. Após mais ou menos 70 km, a estrada torna-se de terra. Buracos e buracos. Os 210 km de Rio Branco até Boca do Acre, que apesar do nome ja fica no Amazonas, levariam mais de 6 hs para serem percorridos. Imagino como seria no "inverno" que é como é chamado o periodo das chuvas. Embora em todo o hemisfério sul estivéssemos no inverno, lá é considerado verão, a época de seca. Fora do ônibus eu não via nada além do que o farol mostrava, as estrada e capim nas beiradas. Visibilidade do entorno prejudicada pela escuridão e pelas luzes acesas dentro do veículo. Seria floresta a paisagem que eu atravessava sem ver? De repente o céu começa a se tornar cinzento, com tons avermelhados no horizonte. Tudo é pasto. De um lado ao outro. Cercas, uma ou outra porteira, um ou outro tronco ressequido destacando-se em meio a devastação. Com a pouca luz, ainda não consigo distinguir se são queimados ou apenas desfolhados pela seca, não sei. A luz já permite divisar um ou outro rancho totalmente às escuras. Estariam habitados? Quilômetros e quilômetros sacolejando em buracos e "costelas de burro", uma ou outra imensa árvore destacando-se na planície imensa. Mais tarde descubro se tratarem de castanheiras. Estas são preservadas pela sua imensa importância econômica. Logo começam a surgir pequenos bosques. Reserva legal? Mas na Amazonia, a lei determina que as reservas legais devam ser de 80% da terra, não me parece que eu esteja vendo mais de 20% de matas. Palmeiras, provàvelmente açaizeiros, acho que não fiz o "dever de casa", uma pesquisa sobre o que iria encontrar. Estou munida apenas com vagas informações que colhi ao longo da vida. O horizonte sob o céu róseo, já dá uma idéia da imensidão de tudo que me espera. Descomunal o tamanho das castanheiras. Muito maiores do que as maiores árvores que encontro em minhas andanças pela mata atlântica, ou tudo que já tenha visto. Porem escassas em meio a tanto pasto. Uma ou outra capoeira suja do pó avermelhado da estrada. Quatro horas de viagem e não cruzamos ou fomos ultrapassados por nenhum outro veículo. Não sei se posso chamar floresta a esses pequenos bosques. Passa uma kombi no sentido contrario. O céu ainda não atingiu a cor azul. São 6,30hs. Na verdade, para mim, seriam 7,30hs. Uma árvore cheia de urubus!
Nasce um imenso sol vermelho. À frente dele, uma construção solitária de alvenaria, com os dizeres "Assembléia de Deus". Logo dá para ver nos terreiros das casas de madeira, de tábuas, com telhados ondulados, de folhas de alumínio cintilando ao sol, animais domésticos, cabras, cães, galinhas , aquecendo-se aos primeiros raios de sol. Novamente asfalto, após cerca de 100 km de estrdas de terra, em meio ao amplos espaços, pontilhados aqui e alí de uma ou outra construção rústica, De uma, não se avista outra. A vastidão do espaço desolado.
E assim, de imagem em imagem, paisagem em paisagem, chegamos à Boca do Acre.

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