Ainda a pouco eu rolava furiosamente pelo gramado agarrada ao pescoço de um cachorrão. Não, não se trata de uma metáfora para alguma forma de sexo selvagem (ou na selva). Não escrevo por metáforas se não for absolutamente necessário. Não sou romântica nem romancista. Não sou filósofa, nem linguista. Trata-se de um relato de um acontecimento ou fato real. Por um erro de cálculo, deixei dois cães machos em uma parte do terreno onde havia uma fêmea que eu não imaginei que ainda estivesse no cio. E, é óbvio, eles entraram em luta mortal. Um grandão e um pequeno. Me agarro ao pescoço do grandão que sem soltar o menor, me derruba também e assim seguidamente até que uma das filhas chegasse correndo com o vinagre que, aprendemos, é a unica coisa que faz com que o cão abra a boca. Por não respirar, com o acido sobre o focinho. Estou com o corpo dolorido, não sou jovem e a forma física não está das melhores. Escoriações em joelhos e cotovelos. E pensando em como seria confortável se os animais fossem castrados. Como seria confortável se eu fosse uma pessoa de fé. Fé cega, como tôda fé, em algum sistema, na autoridade da igreja que diz que os animais foram postos no mundo para nos servir. (A mesma igreja que outrora declarou que Indios e Negros não tinham alma e, portanto poderiam ser escravizados). Ou fé cega no materialismo, onde não haveriam consequências para nossos atos alem dos propósitos imediatos. Fé cega em algum conhecimento, autor, ciência. Mas não. Penso sempre em diversas alternativas. Como a famosa dúvida de Pascal, depois retomada por Camus...se deus existe... se não...
Uma colega blogueira tem em sua página, uma figura com uma frase que diz "para os animais todos os humanos são nazistas". Pretendemos o direito de definir o que deve ser feito a eles que seja melhor para nós. Assim castramos os "animais de estimação" para que fiquem mais calmos. Inibimos sua função hormonal, tributária de seus processos instintivos. Que estima é essa? Só contratamos funcionários esterilizados? Há quem o faça. Considerada a questão reprodutiva, excesso populacional, que tambem aflige os humanos, eu, deusa superior do destino dos meus cães, obriguei-os a que fizessem vasectomia. Assim não reproduzem mais, mas ...brigam pela fêmea, reproduzem todos os demais direitos de serem cães e eu que me coloquei na posição de guardiã, nem sempre consigo guardar. Nunca posso reclamar de deus,(se é que ele existe, na dúvida...) Então ciclicamente, ocorrem portões e cercas derrubadas, necessidade de permanecer em casa, até que o ciclo passe. Lutas entre humano e cão por êrro humano.
Porque não tenho uma fé cega? ah! seria tão cômodo. Mas na aporia de minhas investigações céticas, permaneço.
Se a metempsicose for fato? se aquele cão for a reencarnação de um avô? ou do amigo da juventude que me procurando para conversar, num momento em que as atividades cotidianas não mo permitiam(?) e eu digo para que volte outra hora, e nunca mais voltou, suicidou-se a seguir, for aquele cãozinho que chorava em meu portão e que acolhi?
Se for fato não a metempsicose mas uma evolução continua dos espiritos, onde os animais domésticos estão proximos aos humanos para lograrem em uma próxima encarnação iniciarem suas jornadas em um nível acima, o nosso?
Se forem espiritos evoluidos que aí estão para nos ajudar em nosso desenvolvimento pessoal?
Se, se, se. Por não ter fé, suspendo o juizo, tento uma conciliação das possibilidades, uma síntese de teses e antíteses, históricamente hegeliana, moralmente kantiana, enquanto tento alcançar a criança nietzscheniana.
Questão de fé ou de loucura? Castração ou lobotomia?