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quarta-feira, 21 de julho de 2010

CRÔNICAS AMAZÔNICAS - 13



OS DOIS LADOS DA MOEDA

Utilizo a expressão em seu sentido metafórico. Não vou tratar de economia, pelo menos não diretamente.
Vivemos em um planeta onde a dualidade é uma constante, é o paradigma vigente e neste caso, imutável. Nosso modelo de existência funda-se tanto na destruição, na morte, quanto no nascimento ou construção. Quando falamos ou sentimos a beleza da natureza, perdemos o foco de todos os processos que subjazem àquela condição. Quando apreciamos a pujança da floresta, não pensamos que aquilo só se faz a custa dos processos de destruição para regeneração. Que a tão falada biodiversidade se funda nos processos de morte. A cadeia alimentar, por exemplo, é isso: para que uns sobrevivam, se torna necessário a morte dos outros. Para haver a fertilidade do solo, o surgimento de novos indivíduos do reino vegetal, é condição fundamental que folhas caiam das árvores, que árvores caiam ao solo, para que decompostos, alimentem o que vai germinar e crescer. Para uma nova árvore surgir em uma floresta é preciso que outra morra para abrir um espaço ao sol. Isso é a nossa idealizada "natureza", da qual fazemos parte, no mesmo processo de continuidade. Somos dependentes da cadeia alimentar, dos processos de morte/nascimento/crescimento/regeneração. Mesmo sem nos darmos conta, não habitualmente pelo menos, disso. Somos o ecossistema. Estamos em todos os ambientes, sejam quais forem. Mesmo na agitação de uma grande metrópolis, estamos participando - no sentido de pertencer, estar presente, de todos os biomas, do meio rural, agrário, do mar, pois dependemos diretamente deles para a existencia.
Por sermos "dotados de polegar opositor e telencéfalo desenvolvido" ou, seres de razão(?) costumamos achar que podemos dominar a natureza, colocá-la a nosso serviço, como se escrava fosse dos nossos desejos infinitos. E como se infinitos fossem tambem os seus recursos. Esquecemos que produção é dependente de regeneração. Que vida é dependente de morte.
Sempre ouvi dizer, não sei se fato ou ficção, que aprendizes em determinados mosteiros budistas são colocados para contemplar o processo de degeneração de um corpo físico, após a morte, para que tomem consciência da impermanência. Nosso modelo cultural helenocêntrico e eurocêntrico, há muito vem tentando esconder a realidade da morte. Ela, a morte e seus processos, fica oculta, ora entre paredes materiais, ora entre as paredes da (in)consciência, relegada a espaços o mais invisíveis possivel à nossa consciência cotidiana. Mesmo quando maciçamente bombardeados pelos noticiários especializados em tragédias, ela já criou um distanciamento, é parte "de lá" não daqui. É do vizinho, não nossa. Ou quando se vê animais esquartejados em balcões de um mercado e que deixaram de ser ou ter sido seres viventes para se tornarem mercadorias, produtos. É sempre "do outro". Sem nos darmos conta que parte das células do nosso próprio corpo morre todos os dias, todos os instantes. Morremos e matamos.
Porque, de repente me ponho a divagar sobre isto, aqui, nessas crônicas? Como se nada tivesse a ver? Engano. Nunca me senti tão intensamente conectada a estes processos como navegando por estes rios, ou caminhando pelas trilhas da floresta. Algumas horas navegando onde as águas, as forças da natureza promovem a destruição simultâneamente à regeneração, arrancando árvores e terrenos de um lado e construindo praias e solo fértil exatamente em frente, leva a mente a um estado meditativo, uma quase abstração, um afastamento dos processos psicológicos, do ego, e proporciona condições aproximadas de compreensão da realidade última de ser humano, e que eu não gostaria de esquecer.

5 comentários:

Éverton Vidal Azevedo disse...

Poxa, eu que sou da Amazônia (acreano-amazonense) me deliciou com os textos daqui.
Um abraço.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Oi! Obrigado pelo comentário lá no re-novidade rsrs.

Sim, eu nasci em Brasiléia (Acre), froteira com a Bolívia, e depois fui pra Manaus, onde morei a vida inteira. Fui criado nesse espaço fantástico entre o Acre e o Amazonas.

E eu também fiquei curioso. Você trabalho no Amazonas né?

Bj!

São disse...

Se todas as pessoas, pelo menos uma parte delas, tivesse essa aguda consciência de que a vida e a morte são complementares seria, acho, tudo mais fácil.

Bem haja, minha boa amiga.

Rubinho Osório disse...

Eu já devia ter me acostumado, mas ainda me comovo e impressiono com a profundidade de teus textos.
Com razão vc diz que certas experiências são tão fortes e definidoras que calam fundo na alma e moldam o nosso ser.
Por isso, há esperança...

Beatriz disse...

Até pode-se aplicar isso em outros campos. Morremos e nascemos conscientemente a todo momento, no decorrer da vida e das história que escrevemos. Belíssimo texto! Belíssima reflexão! Mas não sei se tornar mais público solucionaria essa falta de percepção.

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